A liberdade e o gesto em Edith Stein

Segundo Stein, somos seres dotados de corpo, alma (psíquico) e espírito (dimensão dos valores). Dependemos do outro e da nossa comunidade para progredir e desenvolver nossas potencialidades. Só assim podemos cada vez mais nos tornar aquilo que devemos ser e realizar a nossa vocação. O caminho do ser humano é se aproximar do núcleo sempre nascente que habita sua interioridade.

Ao procurar captar a essência específica do ser humano, Stein o reconhece como uma pessoa espiritual capaz de sair de si pelo sentir, querer e conhecer em direção ao mais além, à transcendência, como salienta Safra. “O espiritual designa o não espacial e o não material” (Rus, 2015, p.30).

Podemos dizer com Stein que a forma original e indelével do ser humano reside no que ela aponta como suas características fundamentais: a razão e a liberdade. Assim, a tomada de consciência de si abre ao conhecimento de si, permitindo progredir nesse conhecimento até o ponto de “compreender sua vida e dar-lhe forma livremente por si mesmo”. (Rus, 2015, p. 40).

Ao longo do nosso percurso, é preciso que aconteça o desvelamento da marca única, pessoal e intransferível que cada um de nós traz impressa na alma. A pessoa pode ou não pelas suas escolhas, caminhar em direção à realização de si mesma tornando-se “cada vez mais o que de fato é, exercitando a liberdade e a coragem do Ser”.

Por isso, Stein afirma que o ser humano participa do seu processo podendo definir sua formação e direcionar sua vida. Isso permite o fortalecimento das faculdades superiores da alma: vontade, compreensão (ou entendimento) e memória. Essas faculdades abrem caminho para o desenvolvimento espiritual. Daí a importância de desvelamento do que está inicialmente escondido na interioridade de cada um de nós, que se manifesta por meio do gesto e que determina, inclusive, nosso modo de ser e estar no mundo.

É claro que podemos nos abrir ou não para as questões que nos habitam, perspectiva fundamental da liberdade humana. Essas decisões geralmente recorrentes podem ser fontes de sofrimento e angústia. Aqui estamos no âmbito da liberdade, tema caro a Edith Stein, pois a abertura ou o fechamento para nos debruçarmos sobre essas questões é uma escolha pessoal, exigindo a coragem do Ser.

Nessa visão, educar demanda uma abordagem que considere a totalidade da pessoa humana, em que o aprender é expressão da disponibilidade em direção ao outro e ao real. Concebida como formação integral da pessoa com base em sua interioridade, a educação é:

(…)   “arte suprema cujo material não é nem a madeira nem a pedra, mas a alma humana”. Trata-se de uma arte que equivale a uma criação: enquanto as outras faculdades param nas faculdades humanas, a educação penetra até a alma mesma, até sua substancia, para lhe dar uma forma nova e, dessa forma, recriar o ser humano na sua totalidade. Dito de outra maneira é “a partir do mais íntimo da alma (que) o ser humano inteiro é formado parte por parte” (…) é a vida interior que é o fundamento último, a formação se faz do interior para o exterior. (Russ, p.47)

 Sonia Maria B. A. Parente

– Rus, Éric de. A visão educativa de Edith Stein Aproximação a um gesto antropológico integral. – Belo Horizonte: Ed. Artesã, 2015

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