Realidade Virtual: avanço ou fuga do encontro?

Cada vez mais a presença da internet e das tecnologias digitais faz parte do cotidiano. Em seu curso “Realidade Virtual”, Gilberto Safra enfatiza: “Já não ‘entramos’ na internet, nós estamos nela”. 

A digitalização já ultrapassa as barreiras do tempo, das relações, da política, da educação e da própria constituição subjetiva do ser humano. Diante desse cenário, surge uma pergunta decisiva: a realidade virtual é apenas um recurso tecnológico ou pode se tornar vício e até fuga do encontro humano?

Para compreender essa questão, é preciso retornar a algo anterior à tecnologia: a estrutura da condição humana.

O “estar com” como fundamento da ética

Desde o nascimento, o ser humano depende do outro. A necessidade de “estar com” alguém não é um detalhe da vida psíquica, mas o fundamento dos princípios éticos que estruturam a personalidade.

Uma pessoa pode ser descrita por sua capacidade cognitiva, afetiva e volitiva. Mas há algo ainda mais profundo: sua estrutura axiológica, a espinha dorsal anímica que sustenta seu sentido ético. Essa estrutura é formada pelos encontros significativos que marcaram sua história.

Autores como Ferenczi e Winnicott mostraram que a experiência de cuidado, mesmo quando é imperfeita, funda um senso ético originário. Quando esse cuidado é violentado, como nos casos de abuso, o trauma atinge justamente essa base ética. 

Por isso, o “estar com” não é apenas convivência, é também hospitalidade, reconhecimento e sustentação. Harry Guntrip dizia que a força do ego é a memória do amor do outro. Sem essa experiência, o sentido ético se fragiliza. 

E esse é um ponto central quando se estuda a realidade virtual.

Toda forma de organização humana precisa oferecer hospitalidade. Um espaço arquitetônico é planejado para acolher o corpo. Por exemplo, a escola, a casa, a cidade… todos são estruturados para permitir que o sujeito habite o mundo.

Mas o que acontece quando o espaço predominante passa a ser virtual? Quão hospitaleiro é o ambiente digital para o corpo e para a experiência de pessoalização?

A virtualização da vida introduz uma temporalidade acelerada, muitas vezes estranha ao ritmo corporal. A rapidez na resolução de problemas e a disponibilidade infinita de estímulos produzem eficiência, mas também cercear e dissolver a experiência de personalização.

Personalização significa sentir que “eu moro neste corpo”. Quando essa sensação se fragiliza, surgem fenômenos preocupantes: automutilações, estados de dissociação e tentativas radicais de reencontrar uma corporeidade perdida.

Não há dúvidas que a tecnologia vem ampliando as possibilidades da vida, mas nem todos estão constituídos de forma a sustentar essa amplitude sem se fragmentar.

Diferentes sentidos de realidade

O ser humano não vive em uma única realidade. Há dimensões do real que ultrapassam linguagem e cultura; há a realidade compartilhada, que organiza a convivência social; há a realidade subjetiva, onde o indivíduo experimenta o mundo como extensão de si; e há ainda a realidade potencial, o campo do faz-de-conta e da experiência simbólica.

A realidade virtual acrescenta uma nova camada a esse conjunto, ela cria novas formas de existência, de aprendizagem e de criatividade. Contudo, também tensiona as fronteiras entre os diferentes sentidos de realidade.

Quando a distinção entre virtual e real se fragiliza, surgem quadros clínicos complexos. A tecnologia, nesse ponto, não é causa isolada, mas o campo onde vulnerabilidades psíquicas se manifestam.

A modernidade foi movida pela utopia do progresso infinito. A ciência prometia conhecer a verdade e dominar a natureza. Porém, é preciso distinguir entre conhecer cognitivamente a verdade e viver a experiência da verdade.

No ambiente digital, a convicção  é substituída por narrativas voláteis: Fake news, manipulações de imagem, anonimato e pós-política fragilizam a experiência ética.

A literatura antecipou esse dilema. Em “O Mandarim”, Machado de Assis apresenta a possibilidade de matar alguém ao apertar um botão, sem testemunhas. Dostoiévski explora conflitos semelhantes. O anonimato tecnológico amplia essa condição: agir sem o olhar do outro pode corroer o extrato ético.

Ou seja, quando o “estar com” se dissolve, a ética se fragiliza.

Três formas de relação patológica com a realidade virtual

Do ponto de vista clínico, é possível observar ao menos três configurações problemáticas. São elas:

1. A adição virtual

Há indivíduos que utilizam a internet como uma forma de adição. O ambiente digital funciona como um alucinógeno imagético. Trata-se de um problema real, mas que ainda contém esperança: o sujeito permanece à espera de um encontro possível.

Em muitos casos, a solução está no terapeuta pode entrar nesse universo virtual e, gradualmente, transformar a alucinose em relação. O que era pura dispersão pode se converter em “estar com”.

2. A recusa do humano

Mais grave é a recusa da experiência humana. Alguns jovens, ressentidos pela ausência de encontros significativos, passam a preferir o espaço cibernético como rejeição do cotidiano.

Aqui, não há apenas vício, mas perda de esperança. A transferência da existência para o mundo digital pode se tornar tentativa de viver “no nada”. Nesses casos, o risco de colapso e até de suicídio aumenta quando a virtualidade deixa de sustentar a identidade.

3. A personalidade avatar

Um terceiro fenômeno é a criação de um “si mesmo” virtual. É o que se pode chamar de personalidade avatar.

Em certos casos, essa construção oferece reconhecimento social — como o exemplo real de uma jovem que se tornou youtuber e encontrou ali um lugar de existência. Contudo, trata-se de solução precária. A identidade depende inteiramente do ambiente virtual.

Nos quadros mais extremos, ocorre uma dissolução das fronteiras entre real e virtual. O indivíduo não distingue mais jogo e vida, imagem e corporeidade. Surge o que pode ser chamado de psicose pós-moderna, na qual atos do mundo virtual invadem a realidade compartilhada.

Avanço ou fuga do encontro?

A realidade virtual não é, em si, boa ou má. Ela amplia a dimensão dialógica do ser humano, cria possibilidades criativas inéditas e favorece novas formas de colaboração.

O problema surge quando o crescimento tecnológico não é acompanhado pela experiência de convivência. A pergunta decisiva não é apenas se a internet gera vício, mas se ela está sendo utilizada como fuga do encontro humano.

Quando o “estar com” permanece vivo, a tecnologia pode ser integrada à criatividade e à cultura. Quando esse fundamento se perde, a virtualidade torna-se campo de dissolução da ética, da convicção e da própria experiência de si.

O desafio contemporâneo não é rejeitar a tecnologia, mas recuperar valores fundamentais da nossa existência: a hospitalidade, a presença e o encontro humano como fundamentos da condição humana.

Sem isso, a realidade virtual deixa de ser ferramenta e passa a ser refúgio. Nos casos mais graves, se torna fuga do próprio ser.

***

Este artigo foi escrito com base nos ensinamentos de Gilberto Safra ao longo do curso “Realidade Virtual.”

Para se aprofundar no tema, conheça o curso “Realidade Virtual”, de Gilberto Safra, disponível na plataforma da Academia Prosopon.

Acesse https://academiaprosopon.eadplataforma.app/

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *