Entre as afirmações mais contundentes de Donald Winnicott está a ideia de que o mais adoecido não é o neurótico nem o psicótico. Para ele, o mais adoecido é aquele que perdeu a esperança.
Essa afirmação desloca completamente a lógica psicopatológica tradicional. A perda da esperança não é apenas um sintoma entre outros; ela representa a perda do futuro. Entenda que a esperança, aqui, não é otimismo nem expectativa ingênua, mas a capacidade de sustentar a ideia de que algo ainda pode vir a ser.
Quando essa dimensão se perde, a existência se fecha sobre si mesma. Não há mais espera, não há mais anseio, não há mais direção. A clínica, então, passa a lidar com algo ainda mais fundamental do que conflitos ou sintomas: a necessidade de reabrir o futuro.
A clínica para além do passado vivido
Durante muito tempo, a psicanálise esteve ancorada na ideia de que tudo o que estrutura o sofrimento já aconteceu. O trabalho clínico consistia, sobretudo, em interpretar o presente como repetição do passado, especialmente da experiência vivida na infância.
Com Winnicott, esse horizonte se transforma de maneira significativa: o espaço clínico deixa de lidar apenas com o acontecido e passa a se abrir para o não acontecido (aquilo que deveria ter ocorrido, mas que não foi possível).
Essa mudança desloca o eixo da clínica: não se trata apenas de compreender a história do paciente, mas de criar condições para a inauguração de um início.
Há experiências fundamentais da condição humana que, para algumas pessoas, nunca puderam acontecer. Não por ausência de desejo, mas por falta de sustentação, cuidado ou presença no momento em que eram necessárias.
Quando Winnicott afirma que essas experiências precisam acontecer no espaço clínico, ele aponta para algo decisivo: a clínica torna-se um lugar de constituição e não apenas de interpretação.
Ou seja, um espaço onde aquilo que não encontrou possibilidade de acontecer pode, finalmente, se realizar. Nesse horizonte, o analista deixa de ser apenas suporte das transferências do passado e passa a ocupar o lugar de figura real, que está presente no aqui e agora, cuja disponibilidade humana permite que o encontro se torne um acontecimento.
O false self como organização na esperança
O false self pode ser compreendido como uma organização psíquica defensiva, que se forma quando o self verdadeiro não encontra condições suficientes para se expressar e a pessoa dissocia o núcleo de seu ser verdadeiro e se adapta excessivamente às exigências do ambiente.
Na leitura de Donald Winnicott, essa organização não é reduzida a uma patologia. Ela pode ser entendida como uma organização na esperança de que, em um futuro possível, aquilo que não pôde acontecer venha a acontecer.
Trata-se de uma estrutura que preserva, mesmo em condições adversas, a expectativa de melhores condições para que a vida possa se realizar. O false self, nesse sentido, guarda uma aposta silenciosa no porvir.
Essa leitura revela que, mesmo quando a vida psíquica se organiza defensivamente, a esperança pode permanecer como fio subterrâneo de sustentação da existência.
Um dos pontos mais potentes dessa perspectiva é a ideia de que o ser humano pode saber pelo negativo. Ou seja, ele sabe daquilo que não se teve, daquilo que faltou, daquilo que não aconteceu. Por exemplo:
Quem não teve pai sabe, pelo negativo, o que é ser pai.
Quem não teve mãe sabe, pelo negativo, o que é ser mãe.
Esse saber não é intelectual. Ele nasce do anseio, da dor e da espera. Quando o sofrimento pode ser sustentado no campo da esperança, ele se transforma em conhecimento profundo sobre a condição humana e sobre aquilo que é necessário para viver.
O analista como guardião do futuro
Nesse horizonte, o lugar do analista se transforma radicalmente. Ele não é apenas alguém que ajuda a ressignificar o passado, mas alguém que, de certo modo, se torna guardião do futuro do paciente.
O futuro possível do analisando passa a operar como motor da transferência. É a expectativa de ser, o “anseio de”, que sustenta o processo clínico e dá direção ao trabalho.
A clínica deixa de ser apenas um exercício de interpretação e passa a ser um trabalho de presença, sustentação e abertura do devir.
Essa compreensão do encontro como fundante da existência aparece também na literatura. Fiódor Dostoiévski relata como um encontro significativo na infância pode salvar a vida de uma criança.
Não é a frustração que funda a realidade. Para Winnicott, a realidade se constitui pela realização. É no encontro que algo do self ganha existência e se torna real.
Todo aquele que sofre porta um saber. Um saber sobre facetas fundamentais da condição humana. Mas esse saber só se torna fecundo quando o sofrimento pode ser sustentado pelo outro que possibilita a realização da esperança.
Sem esperança, o sofrimento se fecha em ressentimento.
Com esperança, ele se transforma em fonte de conhecimento, ética e abertura para o futuro.
A clínica, nesse sentido, é o espaço onde o sofrimento encontra destino e onde o futuro volta a ser possível.
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Esse artigo foi escrito inspirado nos ensinamentos de Gilberto Safra durante o Seminário “O Processo Maturacional nos dias de hoje: Uma leitura multidimensional do conceito winnicottiano” que ocorreu em setembro de 2025 na Academia Prosopon.
A gravação completa do seminário já está disponível na plataforma da Academia Prosopon, para saber mais acesse https://academiaprosopon.eadplataforma.app/
Abraços,
Equipe Academia Prosopon


