Para chegar até ela é necessário percorrer estradas pouco sinalizadas e desertas. Partindo
de um grande centro urbano (Aracaju), são 210 Km de pura solidão – tudo é silêncio e
ninguém a conhece por ali. Um percurso relativamente curto, mas que leva cinco horas
para ser percorrido. Uma única placa indica “Rota do Sertão”. Depois, é necessário pegar
a balsa para atravessar o Rio São Francisco e, em poucos minutos, chega-se a uma
pequena cidade chamada Pão de Açúcar. A partir desse ponto precisamos andar mais
alguns quilômetros em estrada de terra, estreita e cercada pela caatinga, onde pequenas
casas insistem em existir. A lembrança de uma antiga canção aparece como companhia:
Carcará, de Chico Buarque e João do Vale.
A Ilha não é uma ilha. É um vilarejo onde vivem cerca de 500 pessoas, às margens do rio
que, ali, parece cada vez mais seco e, mesmo assim, continua acolhedor.
O calor é inclemente, mas é suportado quando avistamos casinhas coloridas com o Velho
Chico ao fundo. Nelas vivem as famílias de artesãos, que tornaram o lugar conhecido
mais fora do Brasil do que dentro. O artesanato ali produzido é considerado por
especialistas dos mais criativos do nosso país.
A delicadeza das peças esculpidas em madeira dialoga com a gentileza de seus habitantes.
As portas das casas-ateliês ficam abertas e eles apenas dizem: “Entre!”. Há uma UBS e
duas ou três pequenas adegas onde é possível comprar poucas especiarias.
Tudo é simples: as casas, as ruas e o modo de viver. As cores das casinhas e as peças
expostas chamam a atenção do visitante e contrastam com a dureza do sertão. Há silêncio,
cores e hospitalidade.
O artesanato começou com o “Seu” Fernando Rodrigues, que era pescador e se tornou
autodidata. A sabedoria foi transmitida de geração em geração. Há também a tradição nos
bordados, que levam o nome de Boa Noite, inspiração que veio de uma flor comum por
ali.
Na visita ao Ateliê do Sr. Aberaldo, por exemplo, encontrei-o ensinando sua sobrinha,
uma adolescente compenetrada, a esculpir a madeira. A canção que se ouvia ao fundo,
vinda de em um rádio antigo, era “Oração ao Tempo”, de Caetano Veloso. Sua esposa faz
as honras da casa-ateliê e mostra o vasto jardim, deixando todos à vontade para andar e
apreciar as peças.
Lembranças foram surgindo ao percorrer as poucas ruas desse lugar, com o suor
escorrendo pelo rosto, olhando para as cores e delicadezas, ouvindo a canção tão
emblemática que saúda o tempo.
Na fachada da casa de outra artesã importante, lê-se: “Morena Teixeira – Pau que rama,
flor que cheira”. Ao ler a frase, mais uma canção me visitou – Sonho Impossível:
“E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão…”
É possível constatar que ali nasce a flor, e do chão duro e empoeirado nascem objetos
bonitos e cheios de vida – as adversidades devem ser muitas, mas a criatividade e força
parecem ser maiores. O encontro da simplicidade com a beleza fica na memória e aquece
o coração.
É possível perceber que ali o tempo é outro, a relação com quem é de dentro e com quem
é de fora sugere cuidado, paradoxalmente tão ausente naquele lugar – pois para viver no
sertão, há de se ter força. A delicadeza de tudo o que descrevi contrasta com seu nome.
Segundo informações*, o nome surgiu porque a Ilha pertenceu a uma família cujo
sobrenome era Ferro.
Diante dessas vivências, as contribuições de Gilberto Safra também me visitaram. Em seu
livro A Po-ética na clínica contemporânea (2004), ele dedica um capítulo para tratar da
importância dos objetos nas nossas vidas e na constituição de nossa humanidade. Ele
afirma:
“…O trabalho, ação criativa do ser humano, transforma a terra em coisas que habitam o
lar do homem” (p. 87).
“… O homem com sua ação, com sua criatividade, desvela e outorga significado às
coisas. Elas, por sua vez, abrem no espaço humano a memória da terra, do trabalho e do
Outro” (Sobornost) (p. 88).
A passagem por essa Ilha, as canções que vieram à lembrança e as contribuições de Safra
me fazem pensar que o que vi e vivi ali é poético e ético: a criatividade e os objetos que
dela brotam, apesar da aridez e das adversidades, nos ajudam a pensar naquilo que tanto
nos tem faltado: a consciência de que o homem transcende, cria e alimenta sonhos
amparado pelas mãos que o acolhem e que insistem em transmitir não apenas o
conhecimento, mas a vivência do contato humano, das mãos que se juntam para esculpir
objetos que carregam a história de um lugar. Cada objeto passa a ter uma história única,
talhados com (im) perfeição e carregado de afetos, pois, como afirma Safra: “uma coisa
está sempre relacionada a alguém…” (2004, p. 91).
Sejam talhados ou bordados por mãos que sobrevivem às intempéries, eles percorrem
estradas, não apenas empoeiradas e difíceis, mas aquelas que nos reaproximam de nossa
humanidade, alimentando o que nos constitui – a memória e o encontro com outros e com
a tradição.
***
Referência Bibliográfica:
Safra, G: A po-ética na clínica contemporânea. Aparecida, Ideias e Letras, 2004.





Respostas de 8
Que texto lindo querida!!!!!
Texto muito lindo escrito com muita poesia e honrando a comunidade, a autora e o citado Gilberto Safra
Parabéns Margarida!
Obrigada Suzana!
Margarida, seu texto é poesia e tão delicadamente construído como as obras que você lá encontrou. Parte visitei com você, parte ansiei ir por mim e tecer e esculpir minhas próprias emoções e memórias.
Que destino melhor um texto pode ter do que ser inspiração para outros textos e outros gestos?
Você acompanha com brilho este caminho que Gilberto nos inspira a percorrer. Parabéns, querida!
Margarida o seu texto é o própio gesto criativo ! Lindo ! Quando visitei o velho Chico comprei varios objetos de artesanato , mas nāo tive a oportunidade de visitar a vila ! Parabéns pela contribuição !
Margarida,
Que texto vivo! Pude ver, ouvir e sentir tanta coisa… E, ” coisa” que traz mensagem do simples e mais profundo da humanidade, como Safra nos inspira e sustenta e você nos (re)apresenta com sua sensibilidade.
Obrigada pela partilha, querida!
Que coisa boa ler seu artigo Margarida! Me transportou a este sertão de chão duro, e também cheio de beleza, lugar onde o essencial para o humano brota….paradoxo da vida, que insiste em renascer quando há esperança.
Sua referência às contribuições de Gilberto Safra foi igualmente poética! Parabéns pelo trabalho! Obrigada!
Querida Margarida, uma peregrinação “po-ética” passando pelo silêncio e pela revelação de outros tempos e lugares. Viajei com você… Obrigada por compartilhar sua sensível experiência, seguindo a única placa da estrada: sertão. Ser-tão…
Beijos