Vislumbro apresentar este trabalho da forma mais orgânica possível em um caminho clínico, teórico e pessoal. Tal posicionamento me coloca na perspectiva do corpo, notadamente, na conquista deste se fazer lugar e fomento na constituição do si mesmo. E deste modo, revisitar o cuidar na clínica fisioterápica, apontando tanto para a problemática como para a possibilidade do corpo se tornar e se manter morada.
Um breve voo sobre parte da teoria do amadurecimento emocional em Winnicott, nos faz reconhecer de quantas estágios/tarefas existem para que um ser humano enfrente e conquiste um lugar em seu corpo. Iniciando esta trajetória existencial em necessária continuidade, atrelada a tendência à integração, na relação do bebê com sua mãe ou substituto em um encontro relacional vivo e suficiente, onde, se tudo der certo, o bebê pode explorar seus gestos no espaço que, no contorno e sustento da mãe, inaugura um incipiente lugar. São tantos os arranjos entre o soma e a psique como são os desafios… A psique entrelaçando e elaborando cada imagem das funções corpóreas, galgando diversas integrações no tempo, no espaço e nas relações objetais e humanas. Nesta pequena explanação, mas fundante, é possível reconhecermos a importância do encontro, a realidade da vulnerabilidade e dependência de cuidado do bebê no colo da mãe para que o espaço se torne lugar e o corpo morada. É no corpo como possibilidadede morada para o ser, bem como, nas dificuldades e impossibilidades de se conquistar este habitar que aponto, segundo Winnicott (1988/1990), para os verdadeiros distúrbios psicossomáticos, encontrando na clínica fisioterápica grande ressonância em quadros clínicos difíceis de tratar quando abordados pelo método convencional, pautado no modelo biomédico em que o corpo e o movimento humano são vistos, essencialmente, em seus aspectos biológicos e mecânicos.
Porém, há uma problemática na contemporaneidade de desalojamento e desenraizamento apontadas por Safra (2004), que aprofunda e alarga as questões do corpo, como também, amplia as possibilidades deste se alojar e se fazer lugar. Sua contribuição favorece, como compreendo, a validação e acesso às nuances e singularidades apresentadas na corporeidade de uma pessoa pelo alcance ao seu idioma pessoal[i]; desta forma, me possibilita uma abordagem ainda mais justa a cada paciente, enriquecendo meu “repertório” de comprensão e adaptação ao abordar e intervir com determinada conduta ou técnica que, só fará sentido à cura, se esta favorecer e alcançar, a priori, um cuidado que se faz ético. Reforçando o que, também, nos convoca Winnicott (1999). Me vejo implicada a buscar, cada vez mais, de forma complacente, acesso e adaptação frente à corporeidade que se apresenta para o rico e desafiador ato de clinicar.
Sinaliza Safra (2005) que Winnicott estava atento a toda problemática da questão do lugar e ele se tornou um autor moderno, mas o mal-estar continua no mundo contemporâneo em que a questão da perda do lugar e o desalojamento do corpo se dá hoje por várias outras razões como: temporalidade em sua qualidade rápida e fragmentada, o desaparecimento dos espaços de convívio, a indiferenciação dos lugares, pela segregação dos espaços públicos, fragmentação do privado e do público, pelo crescimento medonho dado pela multiplicação dos espaços bidimensionais das telas e suas tecnologias, pela perda de rosto e da memória da humanidade. E aponta para o lugar não como processo, mas como é e está. Esta é a questão, segundo o autor, do sofrimento para além do processo maturacional e que o mundo digital e das máquinas leva a uma forma de adoecimento em que o corpo deixa de ser um lugar de alojamento porque se diluiu todas as experiências que poderiam organizá-lo esteticamente e rompem a possibilidade do ser humano habitar eticamente o mundo.
Cada vez mais nos deparamos na clínica contemporânea com um tipo de problemática humana que nos coloca, como foco e urgência, o restabelecimento do ethos, o que nos leva ao estabelecimento de uma situação que possibilite o acontecer da condição humana, a partir da compreensão daquilo que é ontológico no ser humano.”(SAFRA, 2004, p.33).
Certa vez, uma paciente me procurou com queixa de uma má postura, ombros fechados e coluna arcada para correção postural. Diz a paciente: “Quando presto atenção em meu tórax, parece que a pele está muito esticada e muito perto do osso. Sinto como se em meu corpo não tivesse uma camada intermediária. É só pele e osso, está tudo esticado, apertado…” Convidei-a então a tocar de maneira que sentisse a densidade de outras estruturas como a pele, o músculo, a mama, os órgãos, e com a mão bem relaxada e receptiva. Assim ela ficou por um tempo… Ao terminamos,perguntei: E a sensação da pele esticada no osso? Respondeu: “Incomoda menos… Vivo um descompasso, sou deum jeito e a vida pede outro… Tenho medo de perder a sanidade por refletir sobre muitas coisas da vida… Encontrar o quê? Quem sustenta essa coisa maior? Ao mesmo tempo em que quero viver, tenho medo…”. Por diversas vezes ocorreram crises de ansiedade… Eu apenas acompanhava e compreendia tal angústia e complexidade que trazia em seu corpo e narrativa; ficava ali respirando junto e ofertando aos poucos, toques e convites para que ela encontrasse em seu próprio corpo um pouso, uma pausa para tentar integrar com tais sensações e sustentar em seu corpo sua angústia só que agora, em companhia…
Em outra ocasião, uma mulher, 56 anos, com dor nas escápulas e punhos por ter trabalhado muito tempo com digitação. Ao narrar sua história diz que estuda demais, que não tem lazer, dorme pouco e que o cansaço é tanto que o corpo dói e demora dormir. E relata: “É um cansaço acumulado… Meu corpo tá calmo por fora e por dentro tem uma agitação, mas não falo, é contida…”.
E complementa: “Tudo que consegui foi com muito esforço e ainda é, sabe? Tenho vontade de cuidado, faço pelos outros e não para mim, quero fazer isso sem peso… Qual o contorno que eu tenho agora? Quero ter essa coerência deste contorno, do meu tamanho, da minha amplitude…”
Ao iniciarmos as vivências de percepção corporal, ela não conseguia fazer e nem explorar movimento algum, dizia ser tudo muito novo e estranho e “congelou” o gesto. Foi percebendo que o corpo inteiro doía e começou a sentir uma parestesia na face (sensibilidade alterada). Dizia: “Tá estranho, tá dolorido, mas tá tudo aqui.” Sensação que poderia fazer referência para um certo sofrimento de despersonalização e que, em certa medida, todos nós podemos vivenciar esta alteração de senso de realidade apenas por uma privação de sono. Mas, sua integração foi rápida e efetiva como poderemos observar mais adiante. Casos mais severos de despersonalização, demonstram, em minha experiência clínica, uma insistência e complexidade deste tipo de vivência, demandando muita espera e cuidado. Na sessão seguinte, ao ofertar novamente a mesma experiência, foi surpreendente… Ela soltou, explorou, ousou o movimento, equilibrando suas tensões quando eu dizia: “dance com suas tensões!”. Demonstrava em sua fisionomia e movimentos que tudo fazia sentido e era prazeroso. E assim seguiu relatando que a dor no braço havia diminuído mas, que a dor havia saído do dedo e do braço e estava no o corpo todo. A elaboração de suas sensações se integrava, mesmo que pelo “dolorimento”, no entanto, agora, em um corpo vivo. Pude compreender que sua experiência de contato com seu corpo e movimento, convidados de maneira simples, livre, orgânica, favoreceu a espontaneidade para experimentar, explorar e criar um repertório próprio de gestos repletos de sensibilidade, singularidade, sentido e isto é lindo de testemunhar…
O corpo como morada é palco, é trampolim, é brinquedo e ao mesmo tempo é templo… Às vezes, me surpreendo na clínica, como neste caso, com a beleza e alegria que surgem, neste momento, na pessoa e em mim quando, apesar de alguma dor e limitação, há a certeza de compartilharmos a fluidez da vida e que hoje, e cada vez mais, compreendo como atestado de Saúde. Para isto é preciso “desobjetificar”, “desencapsular” o corpo, tirá-lo da instância de abstração, é urgente recuperar sua sensibilidade e criatividade. Sou contemplada e aplacada quando, ao viver estas experiências no encontro clínico, ressoa as palavras de Safra: “Quando o corpo não constitui o si mesmo e o modo de ser pessoal, não há presença repleta de sentido. Assim, não há lugar para o encantamento, a alegria, a simplicidade e júbilo.” (Safra, 2004a).
Segundo Safra (2006 a), embora Winnicott não tenha abordado, explicitamente, a questão dos símbolosapresentativos, reconhecia que as organizações simbólicas na materialidade têm um valor em si importantes, não só porque representam, mas pelo fato de possibilitarem uma experiência, quando o autor se referia às questões relacionadas aos objetos e fenômenos transicionais. Como também para a capacidade do profissional de ter acesso a eles para compreender seus pacientes o que, de certa forma, Winnicott (2000) também já assinalara quando apontava para a importância da presença psicossomática do terapeuta.
Safra com seus apontamentos sobre a necessidade do resgate do ethos morada, do acesso ao idioma pessoal[1] e do desvelamento da memória do humano, vivifica as coisas[2] que sustentam o cotidiano e a história. Assim, os objetos “ressucitam” a humanidade e com ela, o encontro e cuidado, que por sua vez, ampliam o rico fenômeno da área intermediária e sua potência de experiências que fomentam a constituição do si mesmo e sustentam sua ação no mundo de forma poética e em devir.
Na intersecção apresentada por Winnicott e Safra sobre objetos e fenômenos transcionais, presença psicossomática e símbolos apresentativos, ouso expor minha “digestão” de conceitos e experiências tão complexas…
Um dia, no meio de uma sessão, a paciente passa por uma pequena escultura de madeira e arame muito singela (simples mesmo) e me disse: “Você é tão isso…” Este objeto apresentava/representava o abraço entre duas pessoas, seus corpos se aproximavam com as cabeça inclinadas uma para a outra em pequenos cubos de madeira, seus braços se enlaçam, “uma” envolvia o pescoço da “outra” e esta descansava seus arames-braços no entorno da cintura-madeira da outra… Seus joelhos-arames se encostavam e relaxavam em um apoio suave sobre a madeira-terra. E ali, entre madeira, arame e gesto, respiravam…
[1] O autor compreende como modo de ser, uma maneira específica, singular de organização de uma pessoa no tempo e no e espaço e este modo se mostra como uma “vestimenta”, ou seja, como um estilo de ser. E toda a semântica existencial de uma pessoa contemplada em seu modo e estilo de ser, se manifesta na maneira como ela fala, uso seu corpo, narra sua história e do seu povo, usa seus símbolos, suas imagens, metáforas e que são traduzidas por Safra como um idioma pessoal.(Safra,2004)
[2] Safra em A Po-Ética na Clínica Contemporânea expande a complexidade de compreensão e cuidado na constituição do si mesmo. Seus estudos e elaborações com pensadores e estudiosos russos, possibilita a profundidade e sofisticação do simples no cotidiano e na presença das coisas. Notadamente, sobre as coisas, diz: “ As coisas, quando preservadas em seu registro ontológico originário, não só dão durabilidade ao mundo, mas também, permitem que o meio ambiente humano possa ressoar em significações… O mundo constituído por coisas, com memória de muitos e abertura para o ethos, permite que o ser humano se reencontre em cada uma delas por meio do tocar, do olhar e de seu convívio com elas. As coisas preservadas em sua ontologia curam o homem.” (2004 p. 90)
A palavra que coisa em russo é vechy e remete ao significado de mensageiro do Ser – SAFRA (2004)
Adélia Prado (1991) apud Safra: “ Toda coisa é a morada da poesia”
Referências Bibliográficas
AB´SÁBER, T. Winnicott- Experiência e Paradoxo. Ubu Editora. São Paulo, 2021.
OGDEN, T. H – O que significa sentir-se psiquicamente vivo: Sobre Objetos e Fenômenos Transicionais. São Francisco USA, 2023- Livro Anual de Psicanálise tomo XXXVII, 2023
SAFRA, G. A poética na clínica contemporânea. Aparecida, SP: Idéias e Letras, 2004a
SAFRA, G. Winnicott e a Corporeidade: a dimensão estética, a linguagem do corpo e o setting terapêutico. Curso emDVD ministrado no Instituto de Análise Bioenergética de São Paulo em 18/05/04. São Paulo: Editora Sobornost, 2004b.
SAFRA, G. A face estética do self. 4.ed. São Paulo: Unimarco, 2005.
SAFRA, G. A hermenêutica na situação clínica. São Paulo: Sobornost, 2006a.
SAFRA, G. Desvelando a memória do humano. São Paulo: Edições Sobornost, 2006b.
SAFRA, G. Adoecimento físico e psíquico, saúde e cura: o corpo como presentificação da biografia. Conferência em DVDno Simpósio de Psicologia em Cardiologia em 28/04/07. São Paulo: Editora Sobornost, 2007.
WINNICOTT, W. D. (1958). Da Pediatria à Psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 2000.
WINNICOTT, W. D. (1971) O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
WINNICOTT, W. D. (1986)Tudo começa em casa. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
WINNICOTT, W.D. (1988) Natureza humana. Rio de Janeiro: Imago, 1990.
Sobre a autora:
Samira C Zar
Fisioterapeuta (Universidade de Ribeirão Preto SP 1991), Mestre em Psicologia Clínica (Pontifícia Universidade Católica SP, 2008). Contato: milazar@uol.com.br / (031)99953-1442




