Observo o bom resultado na condução do cuidado corporal na fisioterapia quando utilizo metáforas para trazer aproximações com sensações, percepções que facilitam mudanças posturais e de movimentos que favorecem uma conexão com o corpo e com a possibilidade de um cuidado simples mas, profundamente, afetivo e efetivo. Exemplifico algumas destas vivências que se tornam, de modo geral, um “adubo” (cuidado) para que a “terra” (corpo) possa se desenvolver com suas possibilidades e habilidades naturais e singulares: Suas costelas formam uma “sanfona”,permitindo a saída e a entrada do ar, sua coluna pode enrolar-se como um “brotinho de samambaia” ou estender – se como uma “folha” já adulta, seu pescoço pode desamassar-se como quando a “tartaruga” tira a cabeça do casco, entre seu ombro e clavícula tem espaço para uma “saboneteira”, deixe que o chão, a cama, a cadeira sustente oseu peso como um “colo”, equilibre suas tensões com toques, movimentos e gestos, como quando cuidamos de uma planta retirandos suas folhas secas, afofando a terra…
Safra destaca a presença de metáforas na construção de nosso espaço potencial, lugar da criatividade: “[…] na perspectiva winnicottiana, podemos afirmar que as metáforas e os mitos-poésis estão presentes no modo comouma pessoa compõe o seu espaço potencial, no modo como aparecem no seu estilo de ser […]” (SAFRA, 2006a,p.76.).
Caminho com meus pacientes “fertilizando” este espaço clínico e potencial de experiências e construção de criatividade e pessoalidade, quer suas demandas corporais sejam provenientes da idade madura e que sinalizam mais para a saúde de sua existência psicossomática, quer sejam decorrentes de interrupções e falhas em seus processos primitivos de desenvolvimento emocional mal sucedido, notadamente, na conquista do alojamento do soma na psique ou personalização. Observo pessoas com possibilidades de consitituição do si mesmo, de corpo e lugar, mesmo que sejam baseadas em falsos selves, experiências de ansiedade, corpos recheados de dores e patologias. E em outros casos, nos quais as possibilidades se estreitam, testemunho suas buscas e, muitas vezes, sua agonia.
Em minha dissertação de mestrado apresento com detalhes o caso de uma pessoa que sofria com a esquizofrenia que, no atual trabalho, não é possível trazê-lo em fragmentos, tamanha é a complexidade para expor todo manejo que foi necessário para que eu pudesse apreender sua dor e proporcionar, em “fragmentos”, um cuidar ético. Porém, é fundamental que eu transmita que outras vinhetas clínicas expostas aqui são, infinitamente, mais próximas de possibilidades de integrações psique e soma, de constituição do si mesmo, do corpo a vir a ser lugar e morada. Posso dizer apenas que em alguns momentos deste longo acompanhamento, nos encontrávamos em alguma “sombra” para um breve pouso, de um caminho árido em um espaço sem fim…
Não deve ter sido fácil enfrentar tudo sozinha com um filho em cada mão…
E a paciente disse: “Eu só tinha que ir” Não dava para parar…”
Então, falei: Não foi fácil desbravar este oceano… Verdadeira vela ao vento! E expressei em gesto a “vela ao vento”.
De repente, ela parou e falou: Faz muito sentido!
Era a imagem que precisávamos para desenhar no corpo uma outra postura, um outro gesto e impulso… Um barco com uma vela, agora, em outra direção, um contra flhuxo do vento na vela o que gerou um relaxamento do tórax, um arredondamento das costas e pescoço. Não precisava ir, era possível parar, ancorar, mudar de direção… Esta experiência no corpo favoreceu um mudança em seu quadril quanto ao encaixe e apoio… Isto foi nodal para vivência no corpo de forma singular e que favoreceu uma localização em sua corporeidade, trazendo sentido e a partir daí, as técnicas alcançam, como posso testemunhar, maiores e melhores resultados.
Uma outra situação, a paciente chega muito ansiosa, com labirintite, encaminhada por um colega que intuia ser necessária a abordagem corporal como me proponho cuidar. A paciente falava, lia, cuidava de tudo para mostrar sua agenda cheia de cuidados (muitos). E com a tontura, caminha pela sala para me mostrar sua agenda com todos os compromissos…
E eu lhe disse: como vc consegue fazer tudo isso com esta tontura…?! Caminhe um pouco mais devagar… quem sabe fica melhor… Ela disse: Não consigo!
Então eu mostrei para ela como estava andando com o joelho duro, batendo o pé no chão como um “estaca”… Então me disse: “meu apelido quando criança era estaquinha”. Será por isso que quando ando na praia, não deixo direito a marca do meu pé na areia? E eu concordei: provavelmente…
Esta imagem e vivência favoreceu um caminhar mais lento (que foi melhor para sua tontura), com mais flexibilidade nos tornozelos, joelhos. E a imagem da marca do pé na areia ficou como convite para um desacelerar. E a paciente disse: faz sentido…
Nestes dois relatos o período de atendimento foi curto, sendo apenas para uma orientação mas, vivemos uma busca atenta e relaxada no contato e cuidado com o corpo; busca simples e espontânea dos gestos e movimentos, em um clima lúdico e de brincadeiras. Quando isso é possível, é um verdadeiro “bálsamo” para o clinicar…
Tive situações na clínica em que a demanda física era clara, pontual e não se apresentavam marcas ou fissuras significativas na integração psique-soma. À medida que o trabalho com o corpo se desenvolvia, a pessoa o integrava e agregava mais saúde. “[…] Desta forma, tocar uma parte de seu corpo é reencontrar a experiência afetiva-existencial vivida com a mãe ou seu substituto, é ter acesso a um repertório imaginativo através do qual o psíquico vive no corpo […]” (SAFRA, 2005, p.48).
Ana, 60 anos, procura-me para melhorar sua postura. E relata que sua região da nuca (região cervical) é, às vezes, dolorida. Refere que anda se sentindo “pesada”. Nosso processo se inicia em um clima de cuidado, suavidade, busca e curiosidade. Desde a avaliação, na utilização de procedimentos que facilitam a percepção do corpo como um todo, apaciente mostrava um certo contentamento quando eu lhe dizia: “não precisa deixar a nuca tão reta, solte a correção dos ombros, pode fazer menos força, apenas sinta que a estrutura óssea dá suporte, sinta seu abdômen como uma “capa protetora”, faça menos esforço”,”sinta mais.”
A proposta e convites a esse corpo cheio de possibilidades de viver mais solto e eficiente, levaram à rápida melhora de seu sintoma de corpo pesado por meio das descobertas de vivências “simples”, naturais, como sentar-se sobre uma estrutura larga com o quadril e deixar que a coluna se “alinhe” naturalmente com a cabeça, ou flexionar o tronco para frente e soltar o peso da cabeça para proporcionar um suave alongamento dos músculos posteriores e voltar, desenrolando o tronco, bem devagar, até posicionar a cabeça e o olhar. E assim foi desenvolvido um repertório de movimentos com o objetivo de restabelecer a flexibilidade articular, o equilíbrio muscular, a distribuição de tensão pelo corpo, ativando a expressão de gestos corporais criativos e lúdicos. Quando iniciei o trabalho com bolas, bastões, pranchas, elásticos, a paciente se tornava uma criança. E assim que chegava para a sessão, queria movimentar-se e aprender mais.
Depois, fui convidando-a para vivências mais lentas e profundas, a possibilidade de relaxar. E propus: “Deite-se naposição mais confortável e deixe seu corpo receber o sustento da cama, a textura do lençol e sinta a temperatura do ar que entra fresco por suas narinas e sai morno, sem nenhum esforço ou controle, apenas sinta esta massagem em sua barriga e peito enquanto respira. E sempre busque o conforto, dê o que seu corpo pede, inclusive o meu toque ou minha ajuda para acomodar-se melhor. O repouso da mão sobre o ventre e tórax propiciam uma sensação profunda dos órgãos e seus ritmos. Dessa forma, deixava-a descansar, cuidando do som, da luminosidade e da temperatura da sala. Muito lentamente, ia retirando meu toque de seu corpo e ali ficava, zelando por seu repouso. Este é um momento sublime também para o terapeuta pois, se está realmente presente, recebe a reverberação da quietude e do silêncio. E isso é muito prazeroso…
Ao longo de minha prática clínica, constatei a necessidade das pessoas viverem este tipo de experiência. O que nem sempre é fácil, pois relaxar, entregar, pressupõem uma conquista que se iniciou muito cedo, no encontro único da mãe com seu bebê; estar não integrado ser recolhido por alguém. Caso contrário, pode ser aqui na Fisioterapia, que isto pode ser, em certa medida, favorecido. Esta é uma vivência única e com extrema capacidade de restabelecer o organismo, deixando-o vibrar em vivência.
Winnicott (1975) dá aos conceitos brincar e criatividade estatuto fundamental para se ter a experiência necessária de encontrar a vivacidade do sentido de si e que se inicia no bom encontro entre a mãe e seu bebê. O que não deixa de se relacionar com a possibilidade e a sorte de experimentar alegria. “A característica essencial do que desejo comunicar refere-se ao brincar como uma experiência, sempre uma experiência criativa, uma experiência na continuidade espaço-tempo, uma forma básica de viver” (WINNICOTT, 1975, p.75).
No entanto, frente a complexidade e sofisticação de algumas defesas, surgem enormes “muralhas” para acessar o corpo, quer sejam pela hipertrofia do soma e, principalmente, pela hipertrofia da mente; neste último caso, o caminho é bem mais longo… Pois compreendendo o corpo nesta perspectiva, o caminho encurtado seria uma invasão que só ampliaria as defesas, como já sabemos. Então, muitas camadas de manejo são necessárias para que se inicie este contato e que as condições fiquem mais favoráveis até que experiências sejam sentidas como próprias e no corpo.
Para que eu lance diálogo sobre este manejo, uso da metáfora de um mosaico que me faz muito sentido. Porque pela dor, pela limitação, desconforto, sofrimento, pelas várias cisões, fragmentos da história em cacos de vivências, vamos criando algo muito pessoal. Interessante como tenho experimentado um acesso enorme à corporeidade do paciente quando traço algo no papel que surge da minha tentativa de vincular ao que o paciente diz em palavras, a uma forma mais orgânica. E para minha feliz surpresa (e do paciente também) surge a conexão com o corpo.
Pretendo em um próximo trabalho expor com maior profundidade este caminho que venho criando com meus pacientes e que aqui me permito apresentar em gesto e forma poética.
De Cacos a Mosaico
Entre o narrar, traços, metáforas e vivências,
No Encarne das palavras em gestos
No vislumbre da confiança
do possível e necessário
Encontro no e entre corpos
Faz destes, pouso
Minha presença e atitude clínica em cuidado lança sonhos e possibilidades nestes mosaicos que, por sua potência e tendência natural de criarem vida e saúde, se transfiguram em girassóis, pipas, cata-ventos, barcos que sustentados por âncoras e velas, fluem ao vento e ao mar e quando querem, atracam e pousam em terra firme.
Referências Bibliográficas
SAFRA, G. A poética na clínica contemporânea. Aparecida, SP: Idéias e Letras, 2004a
SAFRA, G. Winnicott e a Corporeidade: a dimensão estética, a linguagem do corpo e o setting terapêutico. Curso emDVD ministrado no Instituto de Análise Bioenergética de São Paulo em 18/05/04. São Paulo: Editora Sobornost, 2004b.
SAFRA, G. A face estética do self. 4.ed. São Paulo: Unimarco, 2005.
SAFRA, G. A hermenêutica na situação clínica. São Paulo: Sobornost, 2006a.
SAFRA, G. Desvelando a memória do humano. São Paulo: Edições Sobornost, 2006b.
SAFRA, G. Adoecimento físico e psíquico, saúde e cura: o corpo como presentificação da biografia. Conferência em DVDno Simpósio de Psicologia em Cardiologia em 28/04/07. São Paulo: Editora Sobornost, 2007.
WINNICOTT, W. D. (1971) O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
WINNICOTT, W.D (1979) O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983.
WINNICOTT, W. D. (1986)Tudo começa em casa. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
WINNICOTT, W.D. (1988) Natureza humana. Rio de Janeiro: Imago, 1990.
WINNICOTT, C.; SHEPHERD, R; DAVIS, M. (1989) Explorações psicanalíticas.
Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.
Sobre a autora
Samira C Zar
Fisioterapeuta (Universidade de Ribeirão Preto SP 1991), Mestre em Psicologia Clínica (Pontifícia Universidade Católica SP, 2008). Contato: milazar@uol.com.br / (031)99953-1442




